Beijo de língua no espelho / Simone AZ

Beijo de língua no espelho / Simone AZ

A concisão típica do conto e a abertura para dimensões maiores da existência são o segredo dessas pequenas grandes narrativas. O efeito poderoso desses textos resulta de um delicado sistema literário em miniatura, com a capacidade de causar grandes emoções e turbulências, apesar da aparência de simplicidade da existência comum.

            Na narrativa que dá título ao livro, a personagem principal recorda suas paixões de adolescência: Alain Delon, Mick Jagger e o ator Marcos Paulo. Além deles, o Junior, motoqueiro que morava no prédio de uma amiga da escola, com cara de mau e uma franja longa que cobria os olhos. As fantasias de romance da protagonista aparecem em sucessão e logo encontram a realidade e a recusa, deixando-a na companhia da solidão – como um beijo de língua no espelho.

            Também nas narrativas de maior fôlego, os encontros e desencontros amorosos, além das perdas familiares, estruturam narrativas que se abrem
para quadros maiores, como a dimensão política e os retratos de costumes.
Em "Maresias, 1975", a narradora adota o ponto de vista da adolescente
que era nos anos 70 para contar um episódio em que um grupo de jovens "alternativos" quase é descoberto pelo DOPS.

            "Paúba" é narrado em seções que levam nomes de versos de "Águas de março", de Tom Jobim. Nesse relato, um acontecimento trágico do passado continua a atormentar um grupo de amigos décadas depois da convivência de juventude. "Página 102" e "Tudo passa pelo nariz" são relatos inventivos sobre perdas familiares profundas.

            Entre os contos mais experimentais, estão "Algumas coisas que nunca me esqueci da rua da Sears", "Planet Earth is blue and there is nothing I can do" e o tocante "Para quem partiu na curva, em um skate", em formato de carta.

            Também o humor concorre para fazer do livro um conjunto de variações sobre a forma curta. Em "Menina Veneno", com ironia sutil, a protagonista fala, em primeira pessoa, de uma mulher que, depois de colecionar histórias sobre cobras, vira ela mesma uma cobra venenosa, pronta a dar o bote.

            O livro traz vinte e dois contos, com grande variedade temática e de procedimentos literários, alguns mais experimentais, outros mais fluidos, sempre envolventes e inusitados. Em comum, os textos apresentam personagens que se põem a lembrar de acontecimentos que se situam no passado, mas que permanecem atuando e se desdobrando no presente, com resultados imprevisíveis.

 

           

Simone AZ é jornalista formada na PUC-SP e redatora. Fez oficinas de escrita com Marcelino Freire e o Curso de Preparação do Escritor da Casa das Rosas (Clipe). Beijo de língua no espelho foi pré-selecionado no Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Toca. Vive entre São Paulo e Atibaia. É autora também do romance Dakota Blues (a ser lançado em breve).

 

  • Beijo de língua no espelho

    ­Autora: Simone AZ

    Gênero: Contos

    Editora: Quelônio

    ISBN: 978-65-87790-32-9

    Formato: 14x21cm

    Páginas: 120

     

     

     

R$48.00Preço